Despedidas IV

porque o equilíbrio
é precário
Nada como uma mudança para perceber a quantidade de coisas que se juntam, por dentro e por fora da alma, e não é possível carregar. Por não conseguir que seja de outra forma, muito ficará nos sótãos, aguardando o tempo e a coragem de mexer em guardados mais antigos, ou escondidos. Já há bastante com o que as prateleiras seguram, os armários guardam, as gavetas escondem.
Começo pela cozinha. E logo me pergunto por que por aqui, pelas panelas. A cada uma que espano, a lembrança do que conteve. Histórias que não tenho tempo pra parar e pensar, sequer escrever, porque o tempo ruge, e a tentação de ficar-se no passado por mais tempo pode atrasar-me o futuro.
Vêm ver o que me acontece – achei que estava rindo por dentro, mas não: é por fora também. Nesta casa vazia de crianças que viajam, filho grande que já se foi, até meu pensamento se torna audível. Divirto-me dando nome a cada panela, ligado à sua memória mais marcante. E assim todas recebem nomes de amigos que aqui ficam – “aqui”, note-se, sendo o espaço do meu coração, que amigos não precisam de casas, nem de cidades, nem de distâncias que se materializam só nos mapas rodoviários.
Panelas são seres intrigantes, como os amigos. Umas, entregam-se sem medidas; cozinham qualquer coisa, sorriem para qualquer ingrediente, gostam de qualquer colher, não quebram e raramente trincam. E, mesmo quando o fazem, descobrem-se úteis de outras maneiras, ou apenas enfeitam a vida da gente, guardando a história numa prateleira para onde se olha de quando em quando em busca de conforto. Outras, têm seus caprichos: não falam com este ou aquele tempero, discutem com a colher, deixam cair a tampa. Há as que sempre queimam as coisas no fundo, deixando aquela crosta esturricada que dá trabalho depois a quem a lava. As que derramam com incrível facilidade. As que sujam tudo em volta. As que resistem a sair do armário, ficam escondidas lá no fundo, quietas mas (eu sei) atentas. Não as quero trazer pra fora antes do tempo. Uma coisa aprendi (espero): a respeitar o Tempo.
Decidi, anos atrás, pendurar algumas do teto, para desocupar os espaços e livrá-las de estar por baixo da pia, escondidas atrás da cortina de chita. Naquela altura, logo percebi que esse lugar se destina apenas a algumas, especialmente às que têm cabos longos porque gostam que as peguem de longe, sem muita proximidade com as mãos. Tudo bem. Abaixo delas, sob a bancada, uma pilha de panelas grandes e bojudas, umas de pedra, outras de barro. Acomodam-se umas às outras, uma irmandade serena que insiste em ir inteira para cima do fogão: em dia de seu uso, são quatro, cinco, seis coisas diferentes, tudo borbulhando sob o fogo, numa conversa gostosa de comadres que por fim se encontraram no seu lugar preferido. Quando olham para cima, para as distantes panelas de cabo, riem e cochicham umas com as outras, numa alegria simples de gente que gosta de se divertir e aproveitar o que tem a seu lado. São, por excelência, as panelas das sopas.
As frigideiras são um caso à parte. Rasas, mas surpreendentes. Cheias de matizes. Aqui em casa, as preferências dirigem-se mais às frigideiras do que às panelas. Talvez porque a receita familiar que se aprende primeiro seja a das panquecas. Eu gosto da que me queima as mãos se esqueço do pano que lhe cubra o cabo. Mais ninguém gosta, e ela e eu olhamo-nos cúmplices.
Fogo é coisa que as panelas sentem de forma diferente. Estas daqui, à minha direita, gostam do fogão de lenha aberto, o fogo esperto de lenha seca, o calor repentino, que atordoa, que atiça o cheiro do tempero sem perder tempo. Outras, preferem a chapa do fogão, o calor que se espalha queimando quem se aproxima, o chiado que provocam ao saírem molhadas da pia e irem direto pro fogo. Já as da esquerda preferem a serenidade azulada da chama do gás, não gostam da sujeira do carvão, nem dessa overdose de cheiros que eu insisto em criar na cozinha quando acendo a lenha e espalho alecrim na chapa. São panelas comportadas e ordeiras, das que se usam no dia a dia.
Olho a pilha de panelas que formei diante de mim, todas expectantes. Sinto-lhes a agonia do saber estarem sendo escolhidas ou preteridas. Estou parada e quieta diante desse grupo de amigos e percebo que não há nenhum que eu possa deixar para trás. Num suspiro aliviado, começo a embrulhá-las  a todas em jornal do dia de ontem.

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