Enquanto o vento, aqui onde estou, sacode o ar e anuncia tempestade a caminho, a semana anuncia-se com o arcano XIII, a Morte. Varrer o passado tem o mesmo efeito deste vento – leva para longe o que não serve mais, aquilo que nada mais tem a nos dar ou a frutificar na vida, fazer entrar porta adentro aquilo que necessitamos. Numa casa sem porta e sem janela, canta a sabedoria de matriz africana, o que é de bom o vento traz, o que é de ruim o vento leva. Assim é o arcano XIII.
Temida, a Morte é diária. A cada instante algo morre e algo nasce. O milagre da vida tem na sua contraparte o milagre da morte, e apenas nós, que temos uma insistência civilizacional no que é jovem e não apresenta as marcas e as rugas da passagem do tempo, não conseguimos aceitar o ocaso, o fim das coisas, e resistimos aos términos. Pense na sua vida e veja onde essas palavras conversam com o seu momento.
A semana fala de morte. Fala de finais. Fala de varrer o passado porta afora, abrindo espaços para muitas coisas, inclusive para a compreensão de que as coisas se transformam, e um final nada mais é do que a ante-sala de um novo começo. Se seguirmos as palavras do mestre, nas quais ouvimos que nada começa nem acaba, apenas se transforma, aprenderemos a viver de forma mais leve.
Essa leveza, esta semana, tem a ver com trégua. Tem a ver com uma decisão interna de, ainda que não estejam as coisas do jeito que você quer, você decidir, em vez de agir, refletir. Voltar ao antes e refazer as suas contas, os seus acordos. Voltar ao ponto inicial e corrigir-se, reformar-se, aperfeiçoar-se, e ao seu caráter muito especialmente, porque é do seu interior que eu estou falando mesmo.
Muito, mas muito cuidado, com a crueldade e a maldade que vivem dentro de você, tal qual vivem dentro de qualquer outro ser humano. É aqui que você poderá agradecer a energia da trégua – a trégua que impede você de ser a pior versão, de ser aquela que se vinga de forma sangrenta. A palavra “trégua”, inclusive, nos oferece uma pista para esfriar os nossos pensamentos – a origem não é latina, como muitas vezes, mas do gótico triggwa, que significa fé e confiança. A suspensão da guerra nasce da fé e da confiança, o que não deixa de ser um bom prognóstico. É preciso ter fé, e confiança, esta semana, na nossa capacidade de suspender as nossas guerras internas e as nossas guerras particulares.
Os estados de medo, de pânico, de preocupação e terror precisam ser domados e subjugados, isto é importante e necessário. Aquilo que você não pode resolver, aquilo que deriva, por exemplo, de notícias e eventos que não estão no seu imediato campo de vida, precisa ser varrido para os confins do universo. Nós não podemos permitir que esses estados nos dominem, porque nada de bom advém desse estado de dominação do medo, e é imperativo, esta semana, que aquietemos o coração e a mente, e possamos ser, para o nosso ao redor, o ponto de serenidade, de tranquilidade e de ar puro. Evite contaminar-se com aquilo que lhe será dificílimo livrar-se. Às vezes, eu sei que nem sempre, é uma escolha que podemos fazer. Quando a tempestade cair em nossas cabeças, manter o equilíbrio pode ser uma façanha árdua – mas muitas vezes nós vamos, por livre e espontânea vontade, ao encontro da tempestade e nos embrenhamos nela e depois não sabemos como foi que perdemos o sono, o apetite e a vontade de viver. Atenção aos lugares, pessoas e situações onde tentar ser o herói da história é uma escolha e não uma necessidade. Assumir o lugar do ataque ou da vítima, esta semana, não é um bom conselho. Afaste-se, retire-se, diga “logo mais, agora não”, aguarde, reconsidere, remarque.
Muita calma, esta semana. Muita reflexão interna, muita busca do seu centro, do seu equilíbrio. Uma mente que se domina permite reconhecer que sim, o fim de algo chegou, e esse fim precisa ser aceitado, compreendido e vivido. Com gratidão e com o reconhecimento da imensa bênção que é estar vivo e poder experimentar ser humano no planeta. Desligue o seu celular, desligue a sua tela e olhe para a vida real, para as pessoas reais que rodeiam você e com quem você interage verdadeiramente no seu dia. Volte ao centro, volte ao início, e refaça os seus passos se assim for necessário. A benevolência, isto é, querer e desejar o bem, é o caminho seguro por onde é preciso levar para passear a nossa mente e o nosso coração. É nessa fonte que a coragem, a confiança e a capacidade de resistir à atrocidade reside. Que a semana seja o mais leve que possa ser.