A cidade nova

Nesta nova vida urbana, nem pensar em usar carro – bicicleta o dia inteiro, de manhã até de tardezinha. Um dos filhos vem junto, animado, curioso com a cidade que se descobre de pouco em pouco. Prudente, passa os dias indo e voltando, testando caminhos, reconhecendo esquinas, dominando esse ser estranho chamado cidade, apoderando-se dos seus detalhes. Como nenhum outro, reflete como gente grande; gosto das conclusões a que chega, e que me conta devagar, mostrando o quanto o seu coração pensa. Perguntam-lhe se está gostando da mudança e seus olhos traem a saudade do que ficou pra trás; mas logo me diz que é assim mesmo, as coisas novas às vezes demoram pra ser gostadas. Ou algo parecido. O seu olhar atento é um consolo nos meus dias não tão ensolarados.
Saímos para comprar novas cordas para o violão. E esticamos um pouco a pedalada, vamos avançando por ruas que são só números – e ele me diz que também assim acontece em sua nova escola: há professores que só lhe conhecem o número. Porém, confiante e otimista como seu professor Silvio lhe ensinou, logo se lembra da professora de inglês – “ah! Ela me chama pelo meu nome!”. Mudanças que, torço até o fundo da alma, possam fazê-lo crescer em solidariedade, em percepção, em compaixão pelo outro, que se revela tão distinto mas tão amável por isso mesmo. E digo amável no sentido de poder e querer ser amado.
Chegamos à rua 36; descemos e voltamos rodeando a igreja São Geraldo, cheia de lembranças difíceis. A mim, tudo me é familiar, embora de uma forma um tanto vaga; parece que deixei algumas coisas do lado de fora da alma, estacionadas ao relento sem saber como as amadurecer. Ao mesmo tempo, tudo parece diferente. Ocupo-me em resignificar cada pedaço de cidade, sem saber às vezes o que fazer com as recordações. Veem de repente, sem que eu as ouça abrir a porta, e nocauteiam-me a meio dos quarteirões. São muitas, muito mais do que eu tinha consciência. Encontro pessoas que sei conhecer, mas não sei quem são. Como se pertencessem a outra encarnação e me visitassem nessa, mas só com um aceno de cabeça: “sim, estamos aqui – para onde você pensou que tínhamos ido?”. (Até a rua em que moro me faz lembrar, pela placa da esquina onde está escrito o seu nome, que há lugares de onde se vem, o tempo inteiro – mesmo que muitas vezes não lhes usemos os nomes e os reconheçamos de outra forma. Talvez por isso todos a conheçam como rua 10 e raros saibam do seu nome.) Pergunto-me se devo reconstruir outros novos laços, ou se devo deixá-las onde estão. Até porque, ao mesmo tempo, outras se aproximam, chamam a minha atenção, chocam-se comigo nas esquinas e dizem-me um “bom dia” interessado.
Outra filha chama – nova saída, para ver outras coisas, organizar uma vida nova dentro da vida antiga, cuidando que ambas tenham espaço para habitarem estes seres queridos que avançam pelos seus próprios caminhos, tão diferentes entre si, exigindo-me uma ginástica que me deixa cansada mas inspirada. E lá vamos, a pé e de bicicleta, para que a diferença com o antes se note mais, para que não se fuja dela, para que o destino chegue de outra forma, talvez mais ativa, talvez mais dependendo da própria perna. Para que sejamos mais fortes, provavelmente.

7 respostas

  1. Isso é bem próprio desse seu filho, tão quieto e sereno, porém extremo observador do mundo.
    Um "mundo" novo só lhe trará mais possibilidades de aprendizado. E será feliz de qualquer forma.
    Um grande beijo nele, que lhe mando, molhado da chuva mansa( como ele) que cai agora sobre nós.
    Saudades.
    Antô

  2. ai minha amada, nem gosto mais de ler , melhor, fujo das tuas palavras….mas as amo, como amo a ti e aos teus/meus que vi nascer e que acompanho como sempre, de longe dos olhos e muito perto do coração!

    eu sei, adivinho como sentes, reconheço cada um desses sentimentos
    meus olhos se molham
    se me olham
    nos seus

    por outro lado é fascinante chegar de novo
    de um jeito novo, em um tempo novo
    com uma gente nova
    nessa cidade sua também
    beijoabraçocheiro

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