A morte, quando ressignificada

Batem-me à porta duas mortes, no dia de hoje. Distantes e diferentes, unidas num repentino quase a mesma hora. Nesse céu de equinócio, pode ser que se encontrem, pode ser que se auxiliem, nesse passeio pelo céu que as une naquilo que as difere.

A uma, leio-a em vida e em morte; tenho-a por perto em forma de livros, de versos, dessa forma de vida sobrevivente. A outra, guardo-a na marca da retina, na estampa impressa do abraço no corpo. As histórias que sei de um destes que se ausentam localizo-as nas páginas impressas, nas conversas de outros, nos retalhos de conhecimento que fui colecionando ao longo de muitos anos. As histórias que sei de outro sei-as porque as ouvi de sua própria boca, porque vi o desconcerto no movimento de suas mãos, a precariedade como manto sobre seus ombros, o ser indefeso na maneira como atravessava os umbrais das portas. Doem-me ambas, e por motivos tão distintos. 
António chama-se um, Julião chama-se outro. Um falou o português que aprendi de pequena; o outro, o português que se fala nas ruas de Santos. De um, tenho a internet plena de imagens da sua pessoa em vida. De outro, a memória dentro de mim.

Ao António, de nome completo Ramos Rosa, guardo-lhe a inspiração da palavra que aspira ao silêncio. Recorto, nesta noite que escolho como réquiem, fagulhas da sua poesia para que me acompanhem no seu acompanhar. É ele o poeta que diz

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.

Apago as luzes da noite para escutar-lhe melhor as palavras. Espalham-se sobre mim como poeira dele mesmo.

Escrevo para que se levantem os pássaros de areia
e ao pulverizarem-se espalhem a poeira do seu desaparecimento 

E penso no Julião, esse Julio de sobrenome da Silva tão comum, esse homem de 51 anos que vi diante de mim sonhando com a caranguejada que prepararia para a família assim que fosse de novo um homem livre; esse homem grande, de sorriso largo e gesto acolhedor, sobrante de capacidade de ver na desgraça sua o riso à espera, o chiste certeiro; esse homem perdido dentro da incompreensão do mundo em que se planta, como árvore em busca do sol que nunca chega. 

Julião temia, sem talvez perceber ao certo, a saída da prisão. Temia o dia da soltura, o enfrentar do mesmo mundo de antes reconhecendo-se outro. Quem perceberia a mudança? Quem o veria diferente? Talvez se perguntasse à noite. Retardou o quanto pôde a sua soltura. Até chegar o dia de sair, mesmo dia em que, certeira e rápida, encontrou a morte no virar da esquina. 

Espero, nesta noite estrelada, que a sua ida tenha sido breve, que o seu riso tenha ecoado nos espaços siderais, que os anjos todos do céu estejam sentados à sua volta, gargalhando de alegria com o contador de piadas que acaba de chegar; e que se encontre à porta do céu sendo reconhecido pelos passos que conseguiu dar. E quem sabe António esteja também sentado à mesma porta, esperando a sua vez, e talvez um se sente ao lado do outro, e Julião se lembre dos poemas que lemos juntos, e mesmo que nenhum deles seja de António, que um reconheça no olhar do outro a humanidade silenciosa que só a palavra poesia tornada silêncio consegue conter.

Salve, António! Salve, Julião!

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