De todos os nossos fogos

Nestas noites de frio, dá-me logo vontade de acender os três fogos que tenho sob o meu alcance. Nada que ajude muito a situação ambiental calamitosa do planeta, mas às vezes eu cedo à tentação, e desfruto desta situação privilegiada em que me encontro, senhora de três possibilidades ígneas.

Começo pelo fogo do fogão de lenha, que me cozinha por dentro, tanto que, às vezes, preciso quase entrar dentro dele para soprar as brasas que se acumulam nessa caverna escura que é sua câmara de queima. Arde lentamente, esquenta a água, cozinha o arroz e o feijão, assa a torta de banana dentro de seu forno, prepara os aromas que em pouco tempo enfeitam toda a casa. Às vezes deixa cair uma das suas madeiras em chamas, e o chão perto dele já está marcado, de tantas que caíram e demoraram a ser percebidas. Sempre se deixa acender, sem demora e sem resistências – esse é o fogo que domina o centro da minha casa, e junto a ele congregam-se os filhos meus e dos outros, seus amigos, os meus e os conhecidos de ambos. A bancada de madeira que o protege por trás pode apoiar hoje um copo de vinho, amanhã quem sabe um cotovelo, no meio de uma conversa a meia luz, nessas horas em que o melhor é manter uma penumbra protetora,l que nos proteja de nós mesmos, nossos desejos, nossas querências.

O fogo que acendo na lareira, junto à parede da sala que neste mês se tornou da cor das laranjas ao sol poente, abre-se ao mundo sem medos nem cinzas a esconder; as suas labaredas passeiam atrevidas pelos meus olhos, salamandras mutantes desejosas do inspirar de sonhos. As madeiras que se entrelaçam, para que o ar circule, misturam-se sem reservas, quase promíscuas no compartilhar de seu mútuo calor. O fogo da lareira acolhe tudo o que lhe lançam: papéis perdidos pela sala, feitos de anotações de jogos noturnos, números e contas em profusão alucinada; retalhinhos de papel de balas furtivas, das não permitidas; restos do jornal de domingo esquecido (ou guardado?) debaixo do sofá, dias atrás. Aglutina-se e resolve os impasses que possam trazer as diferentes substâncias, e no fim consome-as todas, transformando-as em sua própria substância.

Mas é lá fora, no frio da noite e na noite escura, que ardem as fogueiras. Essa, que acendo enquanto espero, traz-me a desacomodação do ter de sair lá fora, pra fugir da corrente de vento que enche os meus olhos de fumaça e levanta as cinzas de ontem, deixando-as todas a flutuar à minha volta, e eu sozinha perdida entre elas. As chamas elevam-se com mais voracidade, e são fáceis de alimentar: qualquer tamanho, qualquer forma, qualquer quantidade é bem vinda e acolhida. Posso vê-lo, a este fogo, confundindo-se com as estrelas, nessas pequenas fagulhas incandescentes que se levantam e alçam vôo por cima do círculo de pedras que determinei para esse arder. Dormir junto a esse fogo, com essas estrelas todas como teto, não é difícil, e aninhar-se e deixar-se levar pelo ruído sibilante, pelo marujar suave de tudo o que queima, consola e embala os mais poderosos sonhos. Quando acordo, invariavelmente ainda é noite, e mais uma vez percebo que esse fogo, como qualquer outro, apaga-se se não alimentado, nutrido, acarinhado e, sobretudo, percebido.

Por entre os que me levam da fogueira à cama, tenho tempo para guardar, num recanto da minha mente consciente, que o melhor de tudo é poder manter acessos os fogos que escolhemos como legados, e que por isso se tornam responsabilidade nossa. É preciso ter certeza de que os mantemos aquecidos, prontos para entregar ao outro quando ele chegar. Muitas vezes é isso que esse outro procura – um fogão de lenha para o corpo, uma lareira para a alma, uma fogueira para o espírito.


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