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Desinteresse

Quase sem pensar, ergo os olhos para ver a constelação de Escorpião. Vó Chica gosta quando olho o céu. Sei tão pouco, digo-lhe dentro de mim, e consigo aprender tão lentamente estas coisas das estrelas. Ela ri, e me aponta com seus olhos sempre úmidos a caneta e o papel. 

Demoro-me ainda, porque esse olhar cheio de água me intriga e me conforta. Por que tanta água, minha mãe?, pergunto-lhe. Ela ri-se, como sempre faz: “Preferias que tivesse olhos secos e duros, filha? Não precisa interessar pelas águas que limpam meus olhos, eu mesma prefiro assim, desse jeito, os olhos molhados para a terra do coração não secar também”.

Vó Chica tem nos falado do desinteresse. Pensamos que é bom o interesse pelas coisas, pelos outros, mas ela diz que não. Diz que o interesse é quem desenvolve em nós a posse, o ciúme, o desejo, a ânsia, a querência das coisas que não são precisas. Interesse é “estar entre”. Podemos nos sentir importantes, ou que estamos “fazendo a diferença”, quando nos interessamos por alguma coisa ou por alguém, mas não estamos em nós, “estamos entre”. Já quando nos movemos nas trilhas da ação desinteressada, aprendemos as lições da neutralidade, da imparcialidade e do afeto genuíno, que deixa cada coisa e cada pessoa ser aquilo que deve, quando deve, como deve.

Desinteresse, na voz de Vó Chica, é trilhar o nosso caminho fazendo aquilo que podemos fazer, sendo úteis, que é a bênção maior que podemos ter, abertos a qualquer tarefa.

Eu sei porque Vó Chica quer que olhe o céu. Porque os tempos de Urano estão sendo chegados, como ela diz, e nesses tempos o futuro, a coletividade, o conhecimento intuitivo, a sensação de pertencimento à Humanidade vão ser as mais preciosas qualidades.

E como esse é um tempo acelerado, Vó Chica pede calma e tranquilidade. Pede que estejamos atentos aos nossos movimentos, e que não nos angustiemos nem nos deixemos levar de imediato e sem controle por nada que possa nos suceder. Pede que estejamos conscientes de com quem dividimos o espaço que ocupamos. Que nos coliguemos com a Natureza à nossa volta, a reconheçamos e nos tornemos seus observadores. Não são necessárias técnicas ou teorias. Para a ligação que devemos cultivar não há regras nem caminhos prontos. É a ligação que nos ensinará e para ela precisamos apenas silenciar a nós mesmos e entrar em contato. Ouvir o vento, os pássaros, os barulhos das folhas e dos galhos; observarmos uma árvore, uma flor, um pequeno inseto. Um cão. Um gato. Um pássaro no afã de seu ninho. Perceber e deixar ir, sem cultivar interesse.

Vó Chica pede que desenvolvamos por tudo amor sem julgamento, sem dedução, sem a lógica do nosso pensamento usual. Não importa, ao Sol, o que pensemos dele, mas sim como nos comunicamos com ele, que luz ele desperta em nós. Não importa o que possamos dizer – diminuiríamos aquilo que recebemos, e que não cabe em nossas palavras. Até se perde. Transmutemos o que recebemos e ofereçamos onde quer que estejamos.

Vó Chica pede que nos nutramos de silêncio para podermos escutar melhor. Que controlemos a palavra, que não a desperdicemos e tenhamos cuidado com o que colocamos dentro do ouvido do outro. Ouvidos são seres desprotegidos, não têm portas que se fechem nem pálpebras que os cubram.

Vó Chica pede que cessemos as discussões conosco mesmos, e que cultivemos o silêncio interno. Será mais fácil diminuirmos o que dizemos ao outro, e assim não contribuiremos para a sua angústia e a sua ansiedade. Na maior parte das vezes, diz baixinho Vó Chica antes de se ir embora, o que cada um quer é escutar a própria voz, e ter certeza de que existe algo que possa dizer. Não é necessário. Não importa o que você já viveu, as experiências que teve – a sua valia é terem se transformado em aprendizado. A própria experiência, de um tempo gasto e passado, não serve aos desafios do outro neste tempo presente. O silêncio é a melhor oferta. Em silêncio expandimos o nosso interior e ouvimos melhor o  nosso guia interno. As vozes dentro de nós nos distraem de nós mesmos.

Vó Chica fecha os seus e os meus olhos e me converte em sono. Quando os abro, ela já se foi, e todas as velas se apagaram. Ainda assim, está claro.


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