Despedidas V

porque
a palavra é
foto: Samuel Athias

“A palavra me excita”. Quem diz não sou eu, mas Manoel de Barros, poeta em seus 90 anos, o que torna a afirmação altamente respeitável. No saboroso documentário “só 10% é mentira”, que deverei ao Daniel  dos Santos por toda a eternidade, o poeta fala e esparrama poesia por todos os poros. Há trechos de grande poder sonoro, de imensa força evocativa, mas para chegar até eles precisei assistir várias vezes, até conseguir passar além dessa frase tão simples, tão forte, tão verdade: a palavra me excita. Tomo-a emprestada, porque também a mim a palavra excita. Como ele, sou procurada pelas palavras, excitada por elas até o fundo da alma. A diferença reside no que faço com elas, no que elas desabrocham: o que nele é maestria, em mim mera tentativa.
Palavras como “precariedade” (que deriva de prex, a mesma raiz de prece, o que nos leva diretamente à necessidade de prece para deixarmos de ser precários), ou “acaso” (do latim casus, por sua vez derivação de cadere, que significa cair; quase que literalmente “aquilo que cai na nossa frente”), levam-me às alturas. Levam-me aos dicionários, às perguntas, aos outros que sabem tanto, e me surpreendem com a sua capacidade de procriação absoluta. São revelações em forma de letra, que é a única forma que as coisas têm de me revelarem o mundo, acho. Reviro-as por todos os lados e, como acontece ao poeta, percebo que se procuram pelo cheiro, umas às outras, como se pressentissem quem está à porta antes de abri-la.
Há palavras que chegam em grupos. Estão dentro dos textos, e pulam diante de mim como se ganhassem vida própria, tivessem outro colorido, brilho particular. No poema (ou oração?) que os alunos waldorf mais velhos declamam todos os dias de manhã, há duas palavras com um poder de catapultar excitação. “Na amplidão do espaço”.
Pare de ler. Feche os olhos e repita em voz alta: “na amplidão do espaço”.
Eu não sei se as vogais, se as consoantes, se o encontro do todo, mas “amplidão” e “espaço” chamam-se irresistíveis uma à outra e fundem-se num aspecto único do tamanho do céu sem fim. Se precisasse eleger um momento do qual sinto saudade, daquela saudade de doer dentro do peito, de tão funda e potente, aquela saudade em que os dias passam e o coração não cessa de evocar – seria aquele momento em que essas duas palavras, “amplidão” e “espaço”, abandonam o interior dos jovens para se fazerem companhia no espaço aéreo de uma sala de aula. Nessas horas, se não estivesse atenta, perder-me-ia no mar de verdes espalhados do alto da janela, e confundiria o verso seguinte, e me atrapalharia tanto que qualquer um perceberia. E eles ririam, os jovens, que rir é coisa que quem é jovem sabe fazer sem ter vergonha, nem própria, nem alheia. Um alívio.
Pode ser que a ouvidos desatentos algumas palavras pareçam quase nada. Porque são do dia a dia, talvez, palavras simples. Como “praça”. Ou “dentro”. Parecem tão pouco, e no entanto induzem-me o estado de excitação. Quando as encontro, e me apodero delas (ou elas de mim, que vem sendo o mais comum), perseguem-me dia e noite; povoam meus sonhos e só sossegam quando lhes dou atenção e procuro as suas raízes, os seus prolongamentos, seus espaços únicos onde podem possuir-me através do papel onde as registro, agrestes e ácidas e doces e ternas.
As palavras que me excitam podem chegar escritas ou faladas, engasgadas, sussurradas, esboçadas. No exercício de seu poder, escavam-me profundezas repentinas e abruptas. Atingem-me no que me veste mais indefesa e frágil, uma surpresa a meio da multidão desatenta. Demandam, como eu mesma, antes cuidado que contenção. O meu ouvido insiste em reverberar frases teimosas, uma espécie de passado em conluio com o futuro, uma  perseguição mascada nas entrelinhas. É ele quem ouve dentro de mim os espaços de alma em aberto, e porque me avisa corro a protegê-los com um véu de palavras, daquelas com propriedades anti-sépticas e cicatrizantes.
“Não me subestime: às vezes me faço de cego para ver mais longe”. Quem diz não sou eu, nem Manoel de Barros, mas Cazuza. E hoje eu também não me faço de cega. Durmo com os olhos abertos, guardiã das  presenças estacionadas a meu lado.

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