Ouço-a contar-me, como se estivesse ao meu lado e não no jardim da casa onde vive hoje em Fátima, dos 13 meses de atividade vulcânica que acompanhou da escadaria da casa de sua avó, casa açoriana construída em cima de uma rocha tão grande que em seu interior tinha uma gruta. Terras de basalto, casas de basalto, mar azul petróleo em volta: os Açores são meu pensamento em voo quando o mundo concreto craquela. Lá está a janela da casa dessa minha bisavó, transbordada sobre o mar. Lá estão os ensaios da banda da igreja. Lá estão as águas-vivas a dançar na beira da praia. Lá estão as terras vulcânicas, essa paisagem lunar que já criança me depositava silêncio na alma.
É o gosto dessas armas que amanhece na minha boca. Mesmo serenas, são amargas. Penso nos Capelinhos como se a vida fossem, e enterro as mãos nessas cinzas ainda quentes. São estranhamente líquidas, sobem até à garganta e dizem-me que não as deixe transbordar: “Agarra-te a essa inconsistência de neblina que recobre a madrugada, e espera que de nós nasça o mais fértil dos caminhos. É da tua espera que nascem as coisas. É da tua espera que o futuro se alimenta. É da tua espera que as águas que te marejam a alma refluem e seguem seu caminho ao longo da linha da costa, até mergulharem no mar e te acenarem adeus antes da onda final. Deixa que a onda que as leva passe sobre ti: deixa a onda passar e acorda outra vez, até não ser mais necessário.”