Ouvido de passarinho

Pode até ser, pensando bem, que eu tenha ficado atenta demais a tudo o que afeta os ouvidos. E isso porque, ontem de manhã, fiz a lavagem de ouvidos mais fantástica e bem feita de toda a minha vida. Estou ouvindo até o que não me diz respeito. E pode ser que me meta onde também não me diz respeito, mas assim como não consigo tampar os ouvidos, também não consigo calar a boca (ou, no caso, os dedos).
Por exemplo, ontem, começo de noite. Show-tributo a Elis Regina. Cantora boa, repertório bacana, assistência entusiasmada. Nesse calor que varre o Brasil de norte a sul, todo mundo quer é rua, é fresco, é brisa, é vento. E lá vamos todos, uns atrás dos outros, à procura da alegria desse ano novo já de três dias velho.
Estranho ver, no meio de tanta gente animada, dançando, cantando, aplaudindo, assobiando, tantos bebês de colo. Criaturas pequenas, de olhos abertos e cabeças quase implumes, sobrevivendo ao mundo adulto dos microfones, das guitarras, das baterias. Fiquei pensando no quanto eles prefeririam a conversa dos passarinhos de hoje à tarde nos galhos da acerola.
Eu sei, com bastante profundidade e experiência, o quanto é difícil criar filhos. O quanto é difícil atender a todas as solicitações da vida, moderna ou nem tanto, as que inventamos e as que nos inventam. (E ainda as da nossa própria alma, essa que vai se tornando mais densa e consciente de si conforme os anos passam.) Como é difícil sentir-se fazendo parte da vida quando ela assume esse novo contorno, invariavelmente improgramável e imponderável, e que parece afastar-nos da vida tal qual os outros a vivem. As certezas, nessa hora, esfumam-se, ou alojam-se em lugares tão estranhos, viscosos e escuros que certamente nada mais têm a ver conosco. É o que sentimos, pelo menos.
E é então que se começam a construir novas certezas. Ou pontos de vista. E como não somos nós o centro desses pontos, mas eles, os filhos, as coisas assumem outras premências, às vezes com o aspecto feroz da luta da leoa para manter seu filhote a salvo. Não são bem certezas, mas convicções de que a vida pode ser melhor do que parece, e nossos filhos merecem-na, e merecem que façamos levitar a nossa pequenez para consegui-lo.
Por isso as pessoas querem ter seus filhos da forma que acham correta, seja ela qual for. Por isso querem uma escola que respeite este e aquele valor, este e aquele ponto de vista e de formação sobre o mundo. Por isso procuram a alimentação melhor e mais de acordo com o que percebem e querem da vida. Por isso fazem as escolhas que fazem.
A questão é mantê-las e sustentá-las, e não se deixar abater por dragão algum: nem o lugar comum, nem a mídia, nem o “bom senso”, nem a família, tradição e propriedade, nem as nossas fraquezas. Não é fácil.
Às vezes, falta informação. Outras, a informação vem, mas é tão difícil assimilá-la dentro da vida que já se tem, que deixa-se ir, esquece-se em cima de uma prateleira alta, dentro do armário entulhado… Às vezes, o imediatismo da vida moderna, a satisfação das vontades a qualquer preço, ataca-nos pelas costas, e quase não conseguimos desviar E às vezes não desviamos mesmo.

Mas o mais difícil é quando nos esquecemos de que é preciso pensar: pensar na coerência que as nossas escolhas, atitudes e movimentos precisam e devem assumir nessa coisa nova e transcendental que é ter uma criatura tão minúscula sob nosso cuidado e responsabilidade. E de mais ninguém, que essas coisas parecem ser divisíveis com avós, tios e primos, mas é mera ilusão: são as suas escolhas que vão pra balança, as escolhas eventuais dos outros são só bolhas de sabão. Ninguém precisa dar-lhes continuidade.

Ora bem. Se, em hipótese, eu decido que quero que meu filho nasça num ambiente humanizado, em que as suas necessidades de silêncio e penumbra sejam respeitadas, em que o tempo que corra seja o tempo dele e não o do mundo, e por isso o cordão umbilical só seja cortado quando já não pulsar; se, em hipótese, eu decido que a escola que eu quero para meu filho precisa respeitar as fases de seu desenvolvimento, o que inclui a imensa atenção e cuidado ao seu desenvolvimento físico especialmente nos primeiros sete anos de vida; se, em hipótese, eu procuro dar-lhe uma alimentação pura, seis meses de amamentação exclusiva pra começar, e depois o mínimo de agrotóxicos e processos industriais; se essas são as minhas hipóteses e é delas que parto para ir em direção ao horizonte: é preciso que também as demais escolhas sejam feitas, com os olhos no mesmo querer.
Por isso esses bebês imersos nesse ruído não podem ter espaço. A formação das suas capacidades auditivas em pleno processo de maturação torna-os permeáveis, a esses bebês, não só pelos ouvidos, mas pelo ar que os cerca como um todo. Ouvem com a pele, com os órgãos, com a água que forma 75% do seu corpo – e a pele, os órgãos e a água são plasmados pelo ambiente que lhes propiciamos.

Ao longo dos primeiros três anos (sobretudo) oferecemos às crianças a base rítmica para toda a sua vida. Sono e vigília, inspirar e expirar: a vida é feita de ritmos, a criança sabe disso e nós precisamos garantir que ela possa construí-los com saúde. Por isso horas certas de dormir e acordar, por isso atividades que conduzam de um estado a outro estado com suavidade. Também o ambiente auditivo, e os sons que formam um ouvido atento, sereno e compreensivo, precisa ser cuidado. Para que essa criança possa ser alguém permeável às paisagens sonoras da sua vida. Que possa ouvir o silêncio da mata. Discerni-lo do marulhar da água do mar no encontro com a areia. Do chilrear da passarada ao amanhecer. Do ronronar dos carros numa avenida ao longe. Do silêncio solene das estrelas numa noite de lua nova. Do companheiro que dorme ao seu lado. Do amigo que precisa de um ouvido. E do amor que segreda palavras doces – e verdadeiras.

E por isso valem a pena os sacrifícios – porque são ofícios sagrados no movimento etimológico mais exemplar. Valem a pena as concessões que precisamos fazer a nós mesmos e aos outros. Valem a pena o cuidado, a presença, o estar muito atento e o compartilhar de tudo isso. Porque o melhor todos queremos ser e fazer, mas é preciso o ouvido do outro para recebermos de volta o que nós mesmos precisamos ouvir.

Foto: Maíra Ventura

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