São Paulo, ontem

São Paulo, a cidade, tem a capacidade de despertar-me tudo o que de mais rápido vive em mim. Quando estou na disposição correta (e ontem estava), isso diverte-me imensamente, porque consigo quase que ver-me de fora, manipular-me até, transgredindo o que seria o meu normal, vendo o que acontece nessa inversão da ordem que me diz do que faria fosse eu outro. Parece estranho ao pensar nisso pela primeira vez, mas demora-se pouco para perceber o tamanho da recompensa.

Ontem, por exemplo, precisei ir a São Paulo para algo que tinha que fazer apenas às 18h. Ainda assim, decidi sair cedo, de manhãzinha, porque pensando na ida e oferecendo carona, logo me apareceram duas, que precisavam ir cedo, e cheguei à conclusão de que seria interessante sermos companhia uns dos outros. E lá fomos – meus planos, de um vácuo vazio, apenas possibilidades que deliberadamente deixei por conta da carta com que o tarot me perseguiu nas últimas semanas: a roda da fortuna. Portanto: nada de planos, porque não me pertencem. Quando essa demanda se amalgama à própria percepção e acompanha o ritmo natural do dia, é ótimo; quando não, é um pesadelo.

Dias como esse, de tão intensos e completos, parecem vários, e tanta foi a explosão de sensações e tantas as impressões que se acotovelaram à minha superfície, forçando a entrada avassaladora e descontroladamente, que até dirigindo eu precisei dar um jeito de rascunhar algumas coisas, porque iam escapar-se de mim com certeza, com tal velocidade me chegavam, de todos os lados. (Sim, é claro que é perigoso, não aconselho ninguém a seguir-me a ideia de rascunhar coisas em plena marginal, imagino que seja proibido e comporte até uma multa, mas exemplifica bem, e a rigor, o estilo de urgência que me ataca de vez em quando, e ontem em especial.)

Essas inspirações, que não marcam hora e são como aquelas visitas que chegam quando você está de saída e atrasado, atingem-me no centro do peito e alteram-me a respiração de uma maneira caótica. Escrever resolve o que poderia ser esse primeiro problema – mas é na verdade a absoluta solução, e eu sei disso mesmo que de fora pareça outra coisa. Ontem não teve mesmo nada de problema, antes uma agitação de caráter sublime, que fiquei observando em mim mesma, encantada com o que me acontece de vez em quando, graças a vai-saber-o-que.

E cá estou, São Paulo luminosa e ensolarada. Deixo minhas caronas simpáticas e confiantes na minha capacidade de direção, e vou em busca da amizade que há tempos não encontro. Entrego-me absoluta em suas mãos: que me leve onde queira, faça comigo o que deseje, alimente-me ou alimente-se de mim, que pra mim tanto faz, a felicidade do encontro já é tudo e não preciso de mais nada. Graças a essa possibilidade aberta com que acordei, e que consigo examinar agora, tudo é um todo completo, que chega para me dizer tantas coisas que eu quase me perco, atônita com a sintonia à minha volta.

Pra começar (e terminar, senão isto fica longo demais), entre várias opções, decidem-me pela da exposição de Sophie Calle. Sim, lembro-me de ver seu nome em meio aos tantos da FLIP deste ano, mas não sei nada dela, estou afastada de tantas coisas. Descubro que essa criatura francesa, ícone da arte contemporânea (“arte de amplo espectro”, leio na introdução ao folheto que me entregam), tem por caminho a exposição da sua própria vida, nua, crua e de dentes e ossos abertos; custa-me fechar a boca, de tanto que me percebo. Desta vez, nesta exposição/instalação que aliás fica no SESC Pompéia até o dia 7 de setembro e vale a pena ser visitada, o objeto do seu trabalho parte de um email de rompimento amoroso que recebeu de um homem, o seu próprio amor. De cara, antes mesmo de entrar, mal ponho os pés no Sesc e vejo lá embaixo (a exposição é num dos galpões inferiores) o título da exposição (“Cuide de você”), sei que algo de significativo se abriga ali, ainda que não saiba do que se trata. Não são exatamente as palavras, nem me dizem tanto, mas talvez o cuidado gráfico, a disposição de banners ao vento que chama a minha atenção, que se desatina e nem realiza o recital de cítara no salão principal deste Sesc com recordações de tantos anos. Ou talvez não seja nada disso, e apenas a intuição antecipando-me a vida.

O tal email, que a destinatária deixa sem resposta, foi enviado a mais de 100 mulheres, cada uma de um quadrante da vida, para que a analisem a partir da sua própria percepção e ocupação profissional. Nada de pedir ajudas, ou de compartilhar a dor; o intuito é perceber como os outros perceberiam (creio eu que ainda assim isso é um compartilhar, mas vamos lá…). A exposição destacou algumas destas contribuições à dor de Sophie, numa estranha e complexa espécie de terapia auto-coletiva mediática: uma jurista, uma encarcerada, uma papagaia, algumas atrizes, dançarinas, uma especialista em direitos da mulher, outra em boas maneiras, uma tradutora de linguagem sms, uma etnometodologista (?), uma intérprete do talmude, uma headhunter, uma mestre em ikebana…

Cada uma, uma percepção e recepção; cada uma, espaços possíveis de uma resposta que nunca acontecerá, num processo em que não se vislumbram as linhas divisórias da ficção e da realidade, provavelmente (penso eu) porque toda realidade seja uma ficção de cada um à sua maneira. Sei que não gosto de me pensar realidade, e realizo-me na ficcionalização cotidiana de mim mesma como manobra de pura e banal sobrevivência – e deve ser por isso que a minha boca não quer fechar-se. Não tanto pelo que leio, pelo que vejo, pelo que ouço – mas antes por causa do próprio conceito, pela descoberta de que inventaram nomes para as coisas que faço cada vez que acordo (e compreenda-se que eu acordo várias vezes ao longo do mesmo dia).

Descubro depois que a passagem dessa Sophie por Paraty aconteceu pela mesa redonda da qual participou, e na qual estava também o autor do tal email, também escritor. Terá a exposição despudorada da dor tornado mais fácil o seu filtrar e a sua despoluição? Terá a exposição permitido a dor das pequenas torturas que nos impomos, e que nos são vitais, sem que as rechacemos e nos abstenhamos dos seus ensinamentos?

Às vezes, penso comigo mesma, sinto-me realmente intoxicada. Como esse Tietê aqui ao meu lado, passando por essa cidade cheia de surpresas rápidas, instantâneas, tão dessa modernidade em que não importam mais os quinze minutos de fama, mas cada cinco da própria vida. E nós perdendo tantos deles, brincando de kart pelas ruas sem pneus de proteção, expostos sob a ilusão do capacete em nossas cabeças, achando que tudo é sério, muito sério, e demanda os meses de espera que o passado mais tarde condena.

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