Verba volant, scripta manent

Talvez em consonância com o céu de hoje, acordei de um tom difuso e impreciso, do qual só em parte gosto e mais me esforço por suportar. Meu dia está assim mesmo, difusamente impreciso, e eu encontro-me aqui já há algumas horas à procura do ponto de interrogação, que desapareceu até mesmo do meu teclado. As perguntas que não queriam calar desapareceram nesse céu de agonia, não sei se transformadas em afirmações, se em negações, e aquilo que ontem eram as interrogações da vida está tão difuso hoje quanto o próprio tom do dia. Poderia ser bom, mas não é. Poder ao menos escrever um ponto de interrogação poderia salvar-me da indefinição instalada, porque escrever é a salvação do indefinido, que concretizo nestes símbolos aqui, aos quais falta hoje, lamentavelmente, aquele que mais interroga.

Foi daí que me veio, subitamente, a lembrança deste tão latino “verba volant, scripta manent“. Imagino que dessa quase locução tenha derivado o ditado “palavras, leva-as o vento”. Se as palavras faladas voam – verba volant -, as escritas ficam: scripta manent. Têm ainda, estas últimas, além do ficar, a grande vantagem de serem, ou poderem ser, recompostas. Até certo ponto (aquele em que passam a ser compartilhadas), permitem o retorno e a mudança dos sentimentos expressos, amanhã, se assim se quiser e tiver vontade. Vontade às vezes de voltar atrás no que se escreve, porque as coisas se alteram, o movimento muda, o olhar transforma-se – e aquilo que se escreveu ontem já se tingiu hoje de outros tons, que em nada se parecem com o presente. De certa forma, a palavra escrita não está no rol daquelas três coisas que se perdem na vida e nunca voltam atrás: ao contrário da palavra pronunciada, a escrita não é nem uma flecha lançada, nem uma oportunidade perdida. A não ser quando enviada, entregue, desdobrada diante de um outro alguém, o que tanto pode complicar quanto descomplicar a realidade.

As palavras escritas estendem-se aos nossos pés, se as decidimos abrir, com a sutileza de um grande e nascente amor; confortam-nos pela segunda, terceira, quarta, quinta vez, se nos esquecemos do conforto que tivemos ao escrevê-las; permitem-nos sonhos e divagações distantes daqueles que pronunciamos em alto e bom som e que prometem – mas não cumprem. Eu, pessoalmente, prefiro em muito as escritas às faladas, provavelmente porque as que escrevo permitem-me voltar ao meu próprio pensamento antes de decidir-me a dizê-lo, ao que pouco refleti e por pouco sai num ímpeto.

Gosto da fidelidade da inscrição precisa e palpável.

As palavras faladas atormentam-se, incorporam de forma excessiva a sua própria substância, alteram o tom sem que a cor de fundo de fato tenha mudado, e só tarde se percebe que pouco importa o que muitas vezes nem sequer se vê.

Por isso talvez o meu refúgio esteja forrado dessas escritas que me acompanham e rodeiam todos os dias, terapeutas silenciosos em franco desgosto quando acordo deste jeito assim, imprecisa, difusa, sem interrogações que me movimentem a alma. Hoje, o que eu queria mesmo era ter mais tempo pra ficar por aqui, às voltas com os caracteres da minha própria scripta manent. Seduz-me, creio, o poder entremear novos pensamentos aos sentimentos que vou acumulando na folha de papel, talvez um pequeno advérbio que provoque uma mudança na percepção do todo, e o permita dinâmica tal qual é, atingindo quem lê no centro do olho.

O peso do dia que acabou de começar diminuiria, se eu pudesse, de intensidade. Pelo peso do dia e por lhe desejar o fim, volto ao que escrevem outros, saboreando numa terceira ou quarta vez com mais calma o que li a correr, saltando de uma linha a outra com o assombro que provocam as palavras que se percebem pensadas para os próprios olhos, para cativarem a própria atenção, para acenderem no outro, que nesse momento sou eu, algo que ainda não se conhecia aceso antes dessas palavras serem entregues.

É por isso, penso, que vale tanto a pena escrever, porque o mundo se esclarece e nos esclarece, e é por isso que é tão valioso, e ao mesmo tempo tão perturbador, tão inteiro, tão arriscado e tão por tudo isso perfeito.

Perfeito, pela releitura que descobre o quanto permanecem os sentimentos que se desocupam de mim, porque lhes ofereço o espaço de uma lauda. Perfeito, porque assim todos eles sentimentos se distanciam e se guardam a si próprios por enquanto numa gaveta, enquanto não se tem a certeza de poder pronunciar por escrito um pedaço que borbulha ao alcance da mão, como o próprio sangue. E ao mesmo tempo perfeito, porque exatamente o oposto de tudo isso: porque me retoma e reaquece, naquilo que me engana e pode afinal já estar morto, mas que vive para sempre nesta memória inscrita, e pode através dela, como o cheiro das madeleines de Proust, inscrever-se de novo na retina do presente.

Se o que se escreve se constrói como um não, deixa de fazer sofrer assim que escrito; se feito de sim, lê-se através dos diminutos e em metades sorrisos que permearam as palavras enquanto se escreviam, sob este céu de hoje que, só por causa destas quase duas páginas, se transformou e é agora mais luminoso e mais leve. E, com ele, todas as verba volant, e todas as scripta manent.

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